O ciclo da autosabotagem

DicaDoPsicologo

O Ciclo da Autosabotagem

 

O que vemos no outro com tanta clareza, oculta-se em nós mesmos.
Por quantas vezes nos deparamos com situações em nossas vidas, que parecem impossíveis de se superar, ou talvez, tentativas repetitivas de superação, e por mais que insistamos, temos a impressão que nunca saímos do lugar.
Para me tornar um pouco mais claro, posso exemplificar, com um individuo, visivelmente insatisfeito com seu emprego atual, e por mais que faça, cursos de capacitação, procure e envie currículos, faça entrevistas, não consegue outra oportunidade, e sente-se, preso aquele emprego, ou talvez, uma pessoa presa a um relacionamento desgastado, desconfortável, onde por inúmeras vezes, tenta se “libertar”, porem nunca consegue.
Temos a nítida sensação que algo sobrenatural nos prende ao que tanto nos causa sofrimento, e buscamos no outro a justificativa, porém, se analisarmos a fundo, ate o outro (seja a pessoa propriamente dita ou uma situação, como o emprego) foram inicialmente nossas escolhas.
Mas se a escolha é minha, porque não consigo me desvencilhar dela?
Essa realmente é uma pergunta muito difícil, mas não impossível de se responder. Ela nos leva ao desdobramento de inúmeras mais.

Platão, em Protágoras, no diz “ Há uma vitória e uma derrota – a maior e a melhor das vitórias, a mais baixa e a pior das derrotas -,que cada homem conquista ou sofre não pelas mãos dos outros, mas pelas próprias mãos.”
O problema não nos prende, nós que nos prendemos a ele e desdobrar essa reflexão é muito mais uma jornada de autoconhecimento, do que a simples resposta de um “porque”.
Se tomarmos como exemplo, o individuo que não consegue mudar de emprego, podemos nos deparar com um ser humano fragilizado, que teme o desconhecido, talvez por algum trauma, alguma perda, e a simples hipótese de mudança, o apavore, trazem a tona o constrangimento por expor sua insatisfação, sentindo-se na obrigação de apresentar alguma resposta a este, como um dever moral em relação aos demais.
Mas, ao analisarmos a fundo suas tentativas, percebemos que, dos inúmeros cursos feitos, poucos foram concluídos ou voltados para a carreira que almejada, das entrevistas feitas, na maior parte, forçosamente se atrasou ou nem ao menos compareceu.

No caso do relacionamento, podemos supor e questionar que, por quantas vezes a conversa definitiva foi adiada pelos mais inúmeros motivos, muitos até de relevância questionável (“Hoje é feriado, não quero estragar minha folga com essa conversa desagradável”). Ambos são exemplos, e poderíamos citar inúmeros mais, porem todos teriam algo em comum, todos se auto sabotam em suas vontades e muitas vezes, não se dão conta disso.
Temos como hábito, a repetição, inclusive devido a sensação de segurança que ela nos trás, porem, às vezes, ela nos leva a um circulo vicioso, o qual, temos dificuldades de nos libertar.
Hábitos destrutivos, como vícios (em geral) são moralmente criticados, e muitas vezes o individuo é alvo de apontamentos (sem vergonha, fraco, entre outros), porem ele tem mais semelhança com os exemplos acima, do que poderíamos imaginar.

A Psicanálise se refere a essa tendência, como compulsão. Freud descreveu como compulsão “a repetição instintiva que seria virtualmente impossível de exteriorizar, praticamente impossível de ser encarada e transformada”, porem, essa repetição pode ser menos instintiva, mas igualmente insidiosa, como uma necessidade inconsciente de repetir comportamentos, para satisfazer desejos ou levar adiante um ato.
Se pudéssemos acrescentar ao exemplo do individuo insatisfeito com o emprego, como por exemplo, um nome, João. A sua atividade, Advogado, e uma historia, talvez fosse mais relevante, então vamos:
“João, um homem de 41 anos, advogado, vem de uma família tradicional, onde desde seu avô, todos são advogados. O relacionamentoJoão - Homem triste de Joãocom seu pai, sempre foi muito afetuoso, e desde cedo este expressava o desejo que o filho seguisse a carreira da família. João desde muito cedo acompanhava a sua mãe na cozinha, e tinha muito prazer em ajudá-la a cozinhar. Seu pai o repreendia, pois aquilo era “coisa de mulher”. Em resumo, João se formou em direito, encheu o pai de orgulho, e não se sente feliz com a carreira. Apesar de muito bem instruído, e ter a ciência e condições de seguir outra carreira, diariamente se queixa que estar preso a sua profissão”.
Poderia levantar como hipótese que João só seguiu a carreira para agradar o pai, pois a retribuição era o afeto deste. Essa idéia se construiu dentro de João, e mesmo não se dando conta, inconscientemente, ele teme decepcionar este pai, e não ser mais digno do seu afeto.

O João, poderia ser Maria, que não consegue se livrar do casamento infeliz, e tem como historia, uma formação rígida e pautada na religiosidade, onde o divorcio é inconcebível. Maria afirma que a felicidade vem em primeiro lugar, e que a questão religiosa é algo a ser relevado, porem, ela sempre encontra uma justificativa para prosseguir, mesmo reconhecidamente infeliz.
Por fim, João e Maria, poderiam ser Pedro.

Pedro, 30 anos, técnico administrativo, casado, 3 filhos e dependente químico. Ele possui um bom emprego, que lhe garante uma remuneração confortável, porem, vez ou outra “foge” da sua família e consome narcótico, ao ponto de precisar ser resgatado pela esposa nos piores lugares imagináveis.
Pedro tem a ciência do seu comportamento destrutivo e sofre com isso, o que agrava ainda mais a sua dependência. O fato de ser bem sucedido, é usado como justificativa para o seu comportamento, como sendo “socialmente funcional”. Ele afirma que não existe vicio, pois trabalha todos os dias e suas contas estão sempre pagas. Forçosamente toda tentativa de tratamento ao qual ele se submeteu, é sabotada por essas justificativas.
Bem, o que esses três casos distintos, teriam em comum?
Uma resposta, auto sabotagem.
Ambos tem a ciência de seus respectivos problemas, e excelentes respostas. Poderíamos afirmar que a realidade se molda conforme a nossa vontade, e que se houver uma boa justificativa, 2 mais 2, poderiam ser 5, correto? Não, errado.

RecomeçarToda mudança, forçosamente nos leva o nos desprendermos de algo, e isso, nos trás insegurança e muitas vezes algum grau de sofrimento.
Em ambos os exemplos, existe um desconforto (para não dizer sofrimento) com o estado atual, porem, existem raízes profundas, historias, motivos e principalmente justificativas, que deveriam ser analisadas mais profundamente.
Como disse anteriormente, não basta saber o que se deseja, e sim o “porque”. Mediante a essa analise é possível descobrir o que nos impede de seguir adiante com aquilo que desejamos.
Para tanto, devemos compreender e admitir o fato de que a nossa maneira de viver a “vida”, não se deve a um acidente ou causalidade. Talvez será necessário conviver com arrependimentos, frustrações, mas esse será o preço a ser pago para se seguir em frente.
Somos parte dos nossos problemas, e precisamos assumir isso para que o nosso ciclo de auto sabotagem, cesse.
João terá que aceitar que não deseja mais seguir os passos que o pai lhe traçou, Maria deverá confrontar seus dogmas mais íntimos e Pedro, admitir que apesar de tudo, tem um problema.

De acordo com Stanley Rosner, em seu livro O ciclo da Autossabotagem, “vivemos em uma sociedade que tende a julgar e a criticar. Definimos pensamentos e comportamentos segundo o que os especialistas em lógica chamam de a lei do meio excluído, desconsiderando que pode haver explicação para pensamentos e comportamentos, sem a necessidade de julgamentos ou criticas.”
Inicialmente devemos nos reconhecer, mediante as nossas falhas, dificuldades e limitações, e posteriormente nos conscientizar da nossa responsabilidade. Findo ambos, enxergaremos com clareza o que temos como objetivo, o que nos pertence e principalmente, o que não nos pertence, e dessa forma o que nos limita e sabota, em relação ao que buscamos e almejamos.
A felicidade é uma rota acessível a todos nós. Vezes tortuosa, vezes retilínea, ela é tão singular, que dificilmente duas pessoas farão o mesmo percurso, porém, o seu final, sempre será o mesmo, ser feliz, e esse é um direito nato, de cada ser humano.

 

Escrito por:
Ulcariston Satiro da Cunha
Psicólogo Clínico
Contato: (12) 99148-7439
UNIQUE – Psicologia & Bem Estar

 

 

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